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O valor da escuta e do silêncio

Viver também é ocupar-se, realizando coisas, ora para atender às demandas de uma vida compartilhada, ora para atender à necessidade de nos expressarmos no mundo.

A questão que se coloca é: o que acontece quando nos sentimos dominados e impelidos a responder às demandas de modo quase automático, com a sensação de que, se não o fizermos, as coisas boas podem estar em risco?

Precisamos pensar com mais cuidado, pois, na ânsia de obter garantias de permanência, pertencimento e segurança, podemos tentar cristalizar aquilo que já perdeu sua função, impedindo que o novo surja. Diante da dificuldade de confiar no movimento da vida, que, assim como as ondas do mar, vão e vêm desenhando um mar sempre renovado, agarramo-nos àquilo que já não é mais. Nesse processo, pode emergir um sentimento de cansaço e peso, que tendemos a atribuir à vida ou aos outros, quando talvez ele revele apenas a resistência em deixar partir o que já cumpriu seu tempo.

Pare e pense: será que estamos nos esquecendo de que aquilo que sustenta o edifício é o seu fundamento?

Lembrei-me de Jesus quando fala sobre a diferença entre construir um castelo sobre a rocha e sobre a areia. A construção sobre a areia pode parecer um caminho mais rápido e transmitir uma falsa sensação de segurança. É um caminho sedutor justamente porque oferece a ilusão de estabilidade sem exigir profundidade. Já construir sobre a rocha requer tempo, paciência e esforço. Os resultados não são imediatos.

Assim também acontece com a boa semente. Ela precisa ser cuidada e, em seu tempo próprio, cresce e dará o fruto. Cabe ao agricultor respeitar esse ritmo.

Entendo que a vida cotidiana muitas vezes nos engole. Por isso, de vez em quando, precisamos desacelerar e encontrar um espaço, dentro e fora de nós, para observar o movimento no qual estamos inseridos. Caso contrário, dificilmente conseguiremos nos diferenciar e descobrir um novo modo de nos deixarmos afetar pelo mundo.

Jesus fazia isso muito bem ao retirar-se do meio da multidão para os montes e, às vezes, para o deserto lugar de silêncio e de enfrentamento das tentações. Essas tentações podem vir de fora, mas somente nos desviam de nossa essência quando encontram ressonância dentro de nós.

Cada pessoa pode encontrar o seu lugar de refúgio e refúgio não é fuga. Há uma diferença profunda entre ambos. Refugiar-se é permitir que os barulhos produzidos pelos ruídos de fora sejam suspensos, para que possamos mergulhar em um silêncio habitado pelos sons próprios do estar vivo, em comunhão com o mundo, com os outros e conosco mesmos.

Nesse lugar, a vida simplesmente acontece. Percebemos que tudo o que existe carrega em si um desejo de expressar-se como manifestação do divino no mundo. A árvore cresce, o rio corre, o vento sopra, o pássaro canta. Nada força sua existência; tudo apenas responde ao chamado da vida.

Quando esse canal de expressão encontra muitos entulhos pelo caminho, corremos o risco de nos perder nos emaranhados da existência. Aquilo que nasceu para ser leve e transformador pode tornar-se pesado, dando lugar a um sentimento de vazio, de falta de sentido ou a um caminhar em círculos.

Lembremo-nos da narrativa do êxodo do povo hebreu que, na busca por libertar-se da escravidão no Egito, foi conduzido ao deserto rumo à Terra Prometida. Estima-se que, caminhando em linha reta, essa travessia poderia ser realizada em cerca de quarenta dias. No entanto, o povo peregrinou durante quarenta anos. Mais do que um percurso geográfico, tratava-se de uma travessia interior. As murmurações, os medos e a dificuldade de abandonar antigas referências impediam a construção de um novo modo de existir.

Há momentos em nossa vida em que também somos chamados a atravessar desertos. As referências que antes nos sustentavam já não servem mais, enquanto as novas ainda estão sendo construídas. Habitar esse “entre” entre o que já não é e o que ainda não se tornou exige coragem para alargar as próprias fronteiras, permitindo que novas integrações aconteçam e que a vida se atualize em nós.

É nesse espaço de travessia que um novo tempo pode ser inaugurado. Pouco a pouco, uma nova realidade é gestada em nosso interior e, por meio de nós, pode transbordar para o mundo, como uma fonte que jorra vida por onde passa.

Gosto muito de me retirar para o encontro com a natureza. Ouvi-la ajuda-me a ouvir a mim mesma. O silêncio da mata, o movimento das árvores, o canto dos pássaros e o ritmo das águas me recordam que a vida não tem pressa e, ainda assim, nunca deixa de acontecer.

Mas cada pessoa pode descobrir o seu próprio lugar de escuta. Um lugar onde seja possível contemplar a beleza presente tanto nas alegrias quanto nas tristezas inerentes à existência e redescobrir o belo e o potente que habitam a simplicidade das coisas e dos gestos.

Talvez nos falte perceber que pequeno e grande são classificações ilusórias. A vida não mede importância pelo tamanho, mas pela potência de cada manifestação. Há uma grandeza silenciosa em uma semente que germina, em uma palavra acolhedora, em um gesto de cuidado, em um instante de verdadeira presença.

Talvez seja justamente isso que o silêncio nos ensine: que o fundamento da vida está na qualidade da presença com que habitamos o mundo, e não na quantidade de nossas produções, pois estas podem estar apenas encobrindo um vazio existencial.

Parece-me que somente quando o pensamento repousa e se deixa envolver pelo pulsar da vida acessamos a liberdade para deixar morrer o que já cumpriu seu ciclo e acolher, com confiança, aquilo que a vida deseja fazer nascer em nós.

Quem sabe, então, o verdadeiro milagre da travessia não seja chegar a um lugar, mas tornar-se alguém capaz de habitá-lo, encontrando nele um refúgio que nos permite escutar, no silêncio, aquilo que a vida sussurra ao nosso coração como possibilidade de renascimento.

Para concluir esta reflexão, deixo uma bela citação de Mia Couto: “Eu sou o viajante do deserto que, no regresso, diz: viajei apenas para procurar as minhas próprias pegadas. Sim, sou aquele que viaja apenas para se cobrir de saudades. Eis o deserto, e nele me sonho; eis o oásis, e nele não sei viver.”

Maria das Graças Guedes de Carvalho – Psicóloga. Ama a vida e suas dádivas como ser mãe, cuidar de pessoas e visitar o mar.

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Ainda bem que tem o amanhã!

Pra gente acordar,
Pra viver novas 24h,
Pra abrir os olhos, enxergar o novo dia.

Ainda bem que tem o amanhã,
Pra repensar as ideias,
Pedir perdão e também pra ouvir desculpas! Para se perdoar.

Ainda bem!

Amanhã,
Mesmo que tudo tenha dado errado ontem e a cabeça cheia de dúvidas… o amanhã existe.

Ainda bem que o novo dia nos recarrega e nos mostra outros caminhos.
Ele deixa para o ontem as amarguras, as inquietações e as decepções…

O amanhã se encarrega de tudo!
De mostrar pra gente um erro ou mostrar que acertamos o caminho.
Ainda bem!

Ainda bem que há o amanhã e a solução para muitas coisas.

Pra quem vive, sempre haverá o amanhã!
Ainda bem que dá pra confiar nele e entregar as soluções.

O universo se move a nosso favor.

Ainda bem que tem o amanhã, pra secar as lágrimas, pra amenizar o luto, para acreditar novamente que é possível! Sim, é.

Tudo cura com o tempo: a ferida, a dor da perda, a tempestade, os enganos. A fé está lá, no amanhã.

Ainda bem.
Ainda bem que existe o novo dia. Que a terra gira e que a luz do Sol ilumina novamente Amanhã.

Ainda bem que tudo passa!!
Que tudo passará…
Que o que sentimos hoje, amanhã pode mudar.

Ainda bem que tem o amanhã.
Amanhã, saberemos.

Vera Lígia Bellinazzi Peres – Casada, mãe da Bruna e do Matheus e avó do Léo, pedagoga, professora aposentada pela Prefeitura Municipal de Campinas, atualmente diretora da creche:  Centro Educacional e de Assistência Social, ” Coração de Maria “

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A vida quer viver

Repentinamente, algo me levou a visitar o bosque da cidade. Caminhei lentamente por um corredor de árvores, como se cada passo me conduzisse a um encontro que eu ainda desconhecia. Sentei-me em um banco e permaneci em silêncio, permitindo que o tempo desacelerasse.

À minha volta, a vida seguia seu curso. Pessoas transitavam, crianças brincavam, pequenos animais percorriam seus caminhos. Meu olhar repousou sobre a vegetação à minha frente. Raios de sol atravessavam os vãos entre as folhas das árvores, desenhando feixes de luz que pareciam revelar a delicada trama entre o visível e o invisível.

Naquele instante, não havia nada a fazer, apenas estar. A natureza, em sua silenciosa presença, parecia dizer aquilo que as palavras jamais alcançam. Permaneci ali, deixando que o bosque me habitasse tanto quanto eu o contemplava.

Pouco a pouco, percebi-me como um portal por onde a vida passava e acontecia através de mim e apesar de mim. Já não era eu quem contemplava o bosque; de algum modo, o bosque também me contemplava. Restava apenas abandonar-me ao fluxo e consentir em ser com aquele lugar.

Foi então que me dei conta de que havia algo naquela experiência que era comum e compartilhado por todos os que ali estavam. No entanto, havia também algo irredutivelmente singular: um acontecimento que se dava somente naquele lugar íntimo onde minha existência encontrava o mundo. Ninguém poderia viver exatamente aquela experiência por mim.

Essa percepção conduziu-me a uma compreensão ao mesmo tempo delicada e inquietante: se um dia eu deixasse de existir, também desapareceria uma forma única de encontro com o mundo. Não o mundo em si, que continuaria seu curso, mas a possibilidade singular de ele manifestar-se através da minha existência.

A princípio, essa compreensão trouxe uma discreta tristeza. Em seguida, porém, transformou-se em alegria. Se cada existência é uma abertura única para o mundo, então também somos livres para habitar nossa própria maneira de ser, sem a exigência de corresponder à experiência de ninguém. E, da mesma forma, podemos permitir que o outro seja aquilo que somente ele pode ser.

Algo do outro e algo em mim permanecerão sempre para além daquilo que se pode conhecer. Há uma dimensão inapreensível, um mistério que resiste a toda tentativa de captura. Ainda assim, aquilo que se revela e se comunica no encontro é suficiente para que uma ponte seja construída entre nós.

Talvez seja justamente o indizível que torne o encontro verdadeiramente fecundo. O que não alcançamos compreender não representa uma falha da relação, mas a preservação da alteridade. É essa distância, habitada pelo mistério, que impede a fusão, sustenta o diálogo e permite que cada encontro amplie nosso modo de existir sem jamais anular a singularidade de quem somos.

Ao contrário, é porque preserva essa distância que o encontro se torna possível. Nesse espaço, ambos podem habitar sua própria verdade e, simultaneamente, abrir-se à presença do outro. O cuidado torna-se, assim, um lugar de acolhimento da alteridade, onde cada um pode ser para si sem deixar de ser com o outro. É nesse processo de individuação que o ser transborda para o mundo, atualizando sua potência de existir nos mais variados modos de expressão.

Maria das Graças Guedes de Carvalho – Psicóloga. Ama a vida e suas dádivas como ser mãe, cuidar de pessoas e visitar o mar.

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O melhor do caminho é caminhar por ele

Direta, esquerta. Para.

Atravessa, segue em frente, contorna, marcha a ré, esquerda de novo. Para.

Meia-volta, deixa passar, subida, prova de morro.

Rua sem saída. Volta.

Descida íngreme. Pneu furado. Troca.

Estrada de terra. Asfalto.

Coloca primeira não deixa morrer. Segunda, terceira, quarta, quinta.

Radar. Vai com calma. Dá tempo.

Gasolina ou álcool? Dúvida cruel. Qual é a melhor escolha? Decide.

Segue em frente. Congestionamento. Faz parte.

Cabe mais um?

Derrapa, roda, “ta tudo sob controle”.

Atenção.

Bebida e direção não combinam. Acidente ao lado.

Paralelepípedo. Buracos na pista.

Animais na pista. Cuidado.

Ao lado, as paisagens diversas.

A trilha sonora é diversa também.

Chegou. Desliga.

O melhor do caminho é caminhar por ele.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, sócia-fundadora e editora-chefe do Belas Urbanas, desde 2014. Publicitária. Roteirista. Escritora. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa.

 

 

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Esperar é caminhar

Há pouco tempo conheci o provérbio judaico “o homem faz planos e Deus dá risadas”. Na minha interpretação, acho que Deus dá gargalhadas!

Eu faço planos e traço minuciosamente o trajeto a ser percorrido. No entanto, a rota inicialmente traçada sofre alterações no decorrer da caminhada. São nesses momentos de mudanças que me deparo com as “gargalhadas divinas”.

Nasci e me criei na agitação de São Paulo. Depois dos trinta anos de idade, fui para o interior para acompanhar meu marido nas mudanças do trabalho. Morei em Bauru, morei em Campinas. Atualmente, voltei para São Paulo e estou penando para enfrentar o ritmo da minha cidade.

Eu já encarei a mudança de carreira profissional. Minha primeira formação é Administração. Por dez anos trabalhei ativamente em funções administrativas, mas minha grande paixão é ensinar. Então, quando tive uma oportunidade fiz o curso de Letras e depois de alguns anos comecei a dar aula, unindo minha paixão ao meu ganha-pão.

Desde pequena meu sonho é ser mãe. Segui o caminho conhecido tradicionalmente, que é namorar, noivar e casar. Estou casada há 13 anos, numa união cheia de paz e amor. Mas, os filhos como sonhados e planejados não vieram. Meu marido e eu fizemos tratamento de reprodução assistida e não deu certo. A vida é assim! Não temos controle sobre o fôlego da vida.

Meus planos foram desconstruídos e novas construções começaram a surgir. A vida apresentou o caminho da adoção. Começamos a jornada e estamos habilitados para recebermos nossos filhos. A qualquer momento o telefone vai tocar e a vida vai nos levar para outros caminhos. Enquanto esperamos, vivemos!

Eu poderia escrever muito e profundamente sobre cada etapa, mas por hoje só considero um provérbio bíblico que me acompanha “o homem faz planos, mas Deus dá a palavra final”. Continuo fazendo meus planos, com menos rigor, porque aprendi que a cada mudança eu me desenvolvo muito mais.

Viver exige escolhas e cada escolha apresenta um caminho que precisa ser trilhado. Esperar é caminhar.

Miriam Camelo de Assis – Bela Urbana, alguém sendo constantemente reformada pelas palavras. Formada em administração e letras. É professora de língua portuguesa por profissão e paixão. Ama artesanato e uma boa conversa.