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Piracaia Hotel

Entes queridos, incansáveis passos sobre o chão de madeiras corridas, cozinha de chão batido, fogão de lenha, bule esmaltado exalando o cheirinho do café…

Um dia, por impulso, troquei tudo por caminhos sem laços de afagos desejando encontrar outro céu e viver sem elos de amparos, sem ter hora para voltar, segui pela estrada aberta me iludindo com miragens,
me perdi.

Decidi voltar atrás…

Encontrei ninguém não, mesmo que ainda estejam lá, já estão além.

Encontrei apenas o ranger das madeiras e histórias incrustadas nas entranhas de tantas paredes.

Me tornei um ser único que vaga acompanhado por sombras e gemidos.

Sigo levemente para não despertar ninguém, para não desenterrar o mundo, para não renascer o absurdo.

Caminho entre os talheres e os panos de prato empoeirados sobre a mesa, entre a natureza morta dos quadros ainda pendurados e esquecidos nas paredes.

Caminho como quem caminha no além mar, ando deixando pegadas que um dia foram firmes.

No canto da varanda do alto da escadaria a velha rede balançando, aguardando minha volta.

(PIRACAIA HOTEL foi hotel residência, propriedade da minha família da década de 40 até início de 1978).

Cristina Bonetti – Piracaiense, amante da literatura e de música clássica desde a infância. Filha e neta de escultores. Fã de Manoel Bandeira, Fernando Pessoa, Paulo Coelho e Pablo Neruda. Poetisa, artista plástica e publicitária. Co-autoria Paulo Monteiro no verso final.

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