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Colo de pai

Aqui estávamos, nós dois, sentados, esperando algo passar… quiçá o próprio tempo. Éramos tão jovens.

Nem tínhamos ideia do que seria e o que estava por vir.

Lembranças e boas lembranças vieram à tona.

Colo de pai, sorriso de filha. Eternize-se…

Aquela música do Chapin e a neblina típica de um dia chuvoso.

E você ali, sentado na sua cadeira, lendo um enésimo livro e trilhando suas anotações. Esse momento era mágico e, por mim, eu queria que não fosse embora, porque cada vez que ele se esvaía, eu esperava, mesmo sem saber como seria essa volta .

Não importa … não importava, apenas deixa assim, sem você levantar dali, para eu ficar um pouco mais perto, mesmo longe…

Macarena Lobos –  Formada em comunicação social, fotógrafa há mais de 25 anos, já clicou muitas personalidades, trabalhos publicitários e muitas coberturas jornalísticas. Trabalha com marketing digital e gerencia o coworking Redes, roteirista e produtora do podcast Maca Comunica. De natureza apaixonada e vibrante, se arrisca e segue em frente. 

 

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Prosa Verdadeira do Amor

Em um gesto carinhoso,
o papel pediu ao lápis
versos emprestados
para compor uma prosa.

O lápis amigável
pediu à mão que o conduzia:
“Empreste ao papel seus versos,
deixe cozinhar suas poesias.”

A mão trêmula não hesitou,
pediu ao cérebro, seu mentor:
“Entregue logo seus versos,
quero ouvir esta poesia.”

O cérebro, um pouco desconcertado,
disse: “Há versos para todo lado,
por que os meus têm de preencher este papel?
Meus versos são de amor, não poderá usá-los.

Mas veja bem, tenho alguns jogados,
mal escritos e até estragados.
Quem sabe você os utiliza?
Se não, jogue-os fora.”

“Amor, verdade e prosa,
carinho, amizade e abrigo,
sentido de se ter alguém,
mãos dadas até o fim do caminho.”

Almas limpas, almas brandas,
tons de alma, alma chama,
fogo da vida, vida que declama,
a alma, a alma ainda sangra.

Rasa, profunda alma, alma suja,
que a poeira esquecida
fez dos versos suas feridas
e entregou perdida a alma bandida.

Transtornada noite constrói o dia…
Seus versos, meus delírios, escondidos se refletiam.
Já não eram seus versos que ditavam aquela alma vazia,
era esta alma que sangrava os versos e poesias.

Sangrava de amor, dor e vida,
sentada na calçada, com frio e encolhida.
Sangrava seus versos, suas poesias,
desidratada, desnutrida, esquecida.

A mão pegou os versos que foram jogados,
entregou ao lápis,
que iria levar para o papel
para quem sabe compor uma poesia.

Mas o lápis afiado
entendeu que ele poderia,
quem sabe ele lapidar os versos
e transformar em harmonia.

Então pegou o primeiro verso:
“Amor, verdade e prosa”,
e transformou sem pensar
na Prosa Verdadeira do Amor.

Mas não quis parar por aí.
Pegou o segundo verso
e logo começou a sorrir:
“Carinho, amizade e abrigo”
virou um abrigo de amizade e carinho.

Transformou também seus sentidos:
“sentido de se ter alguém”
para alguém que faz total sentido,
no fim do caminho de suas mãos.

Atravessadas em um meio-fio,
onde suas linhas cruzaram o caminho
e juntas espantaram a solidão,
ele estava aguçado.

Artesão de lápis de ponta fina,
desenhava o papel
parecendo lapidar coisa boa.
Mãos dadas até o fim da poesia,
pegou ele a alma, delicada e fria.

Onde o fogo brando da alma limpa
ardia em chama, a alma atrevida.
Não poupou o lápis suas feridas,
entalhou a alma, esculpindo várias feridas.

Entregue à vida,
alma, alma linda.
Pegue o lápis, alma bandida,
escreva você seus versos, entregue sua poesia.

André Araújo – Homem em constante construção. Romântico por natureza, apaixonado pela vida e pelo universo das Belas Urbanas. Formado em Sistemas, encontrou na poesia seu verdadeiro idioma. Carrega um sorriso de menino e um olhar sensível para a beleza das pequenas coisas. Sempre se emociona ao ver o sorriso de uma mulher iluminar o mundo. É autor do livro Orvalho em Versos, publicado pela Editora Belas Urbanas.

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Dando luz e trazendo a luz

Dr., nasce em triunfo numa meia-noite e em muitas,

a tanto tempo, e dentro, e fora da atemporalidade,

e, até mesmo, do ciclo do tempo,

 

o dia 7 do 7,

dando luz e trazendo a luz,

sua luz que lança luz,

a tão necessitada de luz,

nossa tão querida, tópica psicanalítica,

que mesmo antes de nascer,

já se faz, iluminada,

que o agir exigente da luz que exige exigência urgente,

já clareia nas vogais claras da ordem que ilumina,

e, a toda trajetória da vida que em si mesma,

se movimenta nesse tecer tão competente,

exige exigência,

no seu cumprir tão inerente,

e…

Valéria Vieira – É psicanalista e pedagoga, cega desde o nascimento. Sua produção transita entre a psicanálise, a poética e as experiências da palavra e da escuta. Uma mulher que confia na vida, gosta de vermelho, sonha de ir para Budapeste e ama comer cachorro-quente.

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O valor da escuta e do silêncio

Viver também é ocupar-se, realizando coisas, ora para atender às demandas de uma vida compartilhada, ora para atender à necessidade de nos expressarmos no mundo.

A questão que se coloca é: o que acontece quando nos sentimos dominados e impelidos a responder às demandas de modo quase automático, com a sensação de que, se não o fizermos, as coisas boas podem estar em risco?

Precisamos pensar com mais cuidado, pois, na ânsia de obter garantias de permanência, pertencimento e segurança, podemos tentar cristalizar aquilo que já perdeu sua função, impedindo que o novo surja. Diante da dificuldade de confiar no movimento da vida, que, assim como as ondas do mar, vão e vêm desenhando um mar sempre renovado, agarramo-nos àquilo que já não é mais. Nesse processo, pode emergir um sentimento de cansaço e peso, que tendemos a atribuir à vida ou aos outros, quando talvez ele revele apenas a resistência em deixar partir o que já cumpriu seu tempo.

Pare e pense: será que estamos nos esquecendo de que aquilo que sustenta o edifício é o seu fundamento?

Lembrei-me de Jesus quando fala sobre a diferença entre construir um castelo sobre a rocha e sobre a areia. A construção sobre a areia pode parecer um caminho mais rápido e transmitir uma falsa sensação de segurança. É um caminho sedutor justamente porque oferece a ilusão de estabilidade sem exigir profundidade. Já construir sobre a rocha requer tempo, paciência e esforço. Os resultados não são imediatos.

Assim também acontece com a boa semente. Ela precisa ser cuidada e, em seu tempo próprio, cresce e dará o fruto. Cabe ao agricultor respeitar esse ritmo.

Entendo que a vida cotidiana muitas vezes nos engole. Por isso, de vez em quando, precisamos desacelerar e encontrar um espaço, dentro e fora de nós, para observar o movimento no qual estamos inseridos. Caso contrário, dificilmente conseguiremos nos diferenciar e descobrir um novo modo de nos deixarmos afetar pelo mundo.

Jesus fazia isso muito bem ao retirar-se do meio da multidão para os montes e, às vezes, para o deserto lugar de silêncio e de enfrentamento das tentações. Essas tentações podem vir de fora, mas somente nos desviam de nossa essência quando encontram ressonância dentro de nós.

Cada pessoa pode encontrar o seu lugar de refúgio e refúgio não é fuga. Há uma diferença profunda entre ambos. Refugiar-se é permitir que os barulhos produzidos pelos ruídos de fora sejam suspensos, para que possamos mergulhar em um silêncio habitado pelos sons próprios do estar vivo, em comunhão com o mundo, com os outros e conosco mesmos.

Nesse lugar, a vida simplesmente acontece. Percebemos que tudo o que existe carrega em si um desejo de expressar-se como manifestação do divino no mundo. A árvore cresce, o rio corre, o vento sopra, o pássaro canta. Nada força sua existência; tudo apenas responde ao chamado da vida.

Quando esse canal de expressão encontra muitos entulhos pelo caminho, corremos o risco de nos perder nos emaranhados da existência. Aquilo que nasceu para ser leve e transformador pode tornar-se pesado, dando lugar a um sentimento de vazio, de falta de sentido ou a um caminhar em círculos.

Lembremo-nos da narrativa do êxodo do povo hebreu que, na busca por libertar-se da escravidão no Egito, foi conduzido ao deserto rumo à Terra Prometida. Estima-se que, caminhando em linha reta, essa travessia poderia ser realizada em cerca de quarenta dias. No entanto, o povo peregrinou durante quarenta anos. Mais do que um percurso geográfico, tratava-se de uma travessia interior. As murmurações, os medos e a dificuldade de abandonar antigas referências impediam a construção de um novo modo de existir.

Há momentos em nossa vida em que também somos chamados a atravessar desertos. As referências que antes nos sustentavam já não servem mais, enquanto as novas ainda estão sendo construídas. Habitar esse “entre” entre o que já não é e o que ainda não se tornou exige coragem para alargar as próprias fronteiras, permitindo que novas integrações aconteçam e que a vida se atualize em nós.

É nesse espaço de travessia que um novo tempo pode ser inaugurado. Pouco a pouco, uma nova realidade é gestada em nosso interior e, por meio de nós, pode transbordar para o mundo, como uma fonte que jorra vida por onde passa.

Gosto muito de me retirar para o encontro com a natureza. Ouvi-la ajuda-me a ouvir a mim mesma. O silêncio da mata, o movimento das árvores, o canto dos pássaros e o ritmo das águas me recordam que a vida não tem pressa e, ainda assim, nunca deixa de acontecer.

Mas cada pessoa pode descobrir o seu próprio lugar de escuta. Um lugar onde seja possível contemplar a beleza presente tanto nas alegrias quanto nas tristezas inerentes à existência e redescobrir o belo e o potente que habitam a simplicidade das coisas e dos gestos.

Talvez nos falte perceber que pequeno e grande são classificações ilusórias. A vida não mede importância pelo tamanho, mas pela potência de cada manifestação. Há uma grandeza silenciosa em uma semente que germina, em uma palavra acolhedora, em um gesto de cuidado, em um instante de verdadeira presença.

Talvez seja justamente isso que o silêncio nos ensine: que o fundamento da vida está na qualidade da presença com que habitamos o mundo, e não na quantidade de nossas produções, pois estas podem estar apenas encobrindo um vazio existencial.

Parece-me que somente quando o pensamento repousa e se deixa envolver pelo pulsar da vida acessamos a liberdade para deixar morrer o que já cumpriu seu ciclo e acolher, com confiança, aquilo que a vida deseja fazer nascer em nós.

Quem sabe, então, o verdadeiro milagre da travessia não seja chegar a um lugar, mas tornar-se alguém capaz de habitá-lo, encontrando nele um refúgio que nos permite escutar, no silêncio, aquilo que a vida sussurra ao nosso coração como possibilidade de renascimento.

Para concluir esta reflexão, deixo uma bela citação de Mia Couto: “Eu sou o viajante do deserto que, no regresso, diz: viajei apenas para procurar as minhas próprias pegadas. Sim, sou aquele que viaja apenas para se cobrir de saudades. Eis o deserto, e nele me sonho; eis o oásis, e nele não sei viver.”

Maria das Graças Guedes de Carvalho – Psicóloga. Ama a vida e suas dádivas como ser mãe, cuidar de pessoas e visitar o mar.

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No meio, a praça, a mesma praça!

Duas mulheres, uma de cada lado, olhavam para a praça.

Uma praça bonita com um coreto no meio. Cheia de árvores centenárias. Assim como as centenas de histórias vividas ali.

Ao seu redor, prédios residenciais e um clube.

Era noite, madrugada.

De um lado, uma mulher na sacada do clube. Do outro lado, em um apartamento, uma mulher na janela enorme do quarto. A praça no meio.

No clube, um show. No apartamento a música tocava no Spotify.

A mulher na sacada do clube olhava para baixo, para o carro parado em frente à praça com seu amor na direção. Ele olhava para ela.

Da janela, a mulher brincava com a madrugada, tirava foto da praça vazia… nua na janela de madrugada… o seu amor estava na cozinha.

Como uma princesa na torre, encarava-o da sacada. Esperava que ele subisse e a levasse para outro lugar, mas só ficaram se olhando. De baixo para cima e de cima para baixo.

Já a outra, do outro lado, tirou fotos da praça vazia e voltou a dormir. Dormiram abraçados e pelados. Um respirando o ar do outro.

A praça permanecia ali, no meio, em silêncio naqueles momentos.

40 anos as separavam.

Mas o tempo, ah o tempo… vamos deixar o tempo para lá e só pensar na noite de lua cheia daqueles dias…

Sim, daqueles dias.

E também nas coincidências da vida, como o carro deles, que era o mesmo…

Eles tinham o mesmo gosto que ia para além dos carros.

E ela(s)… entre desejos e pensamentos, vivia(m) para além da praça.

Adriana Chebabi – Sócia-fundadora e editora-chefe do Belas Urbanas. Publicitária. Roteirista e escritora. Antes de tudo, uma contadora de histórias. Curiosa por natureza, sonhadora que realiza.  Acredita que podemos melhorar o mundo, talvez ingênua, talvez não. Desafios a instigam. Ama viajar, estar na natureza e experimentar novos sabores. É do signo de Leão. Já não tem mais certeza do ascendente, mas sabe que, no horóscopo chinês é Macaco.

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Você já foi noiva ou o noivo de uma festa junina?

Você já foi noiva ou o noivo de uma festa junina?

Boa pergunta!
Festas juninas – e seguindo a vivência re…programada!
Devido ao momento explosivo e com caução necessária, para que bombas não nos invalidem o diafragma… E seguindo uma programação determinada!
E seguindo e também atuando sobre as consequências do novo!
E seguindo com incertezas e com respeito pessoal, cívico e social!
… Boa leitura  para todos nós, e que possamos nos somar em nosso intenso fogueiral (criei) interno, já que não teremos os fogueirais otimizados!

Será que não?
E aqueles seres serelepes, que não obedecem, e que estão se regalando na birra antissocial e soltam balões e balões…
Bem… Os balões que não se encaixam com a aliança de duas almas!
Cuidado para não nos queimarmos em nossas decisões, pois podemos arder em bolhas de 1º, 2º, ou 3º grau!
Não queremos marcar a nossa pele e, elas marcam para sempre… Independente das plásticas que virão!

A plástica não esconde de nós mesmos as marcas que são as cicatrizes de nossa alma!
O custo dos volteios (leia-se plásticas/corretivos) ficam bem caro$$$$$$ e do jeito que a coisa vai… Sabemos todos de que o buraco é mais fundo!
Vamos lá!
Que a paçoquinha nos faça assoprar para um lado com menos vento… E que possamos sentir o sabor sem sofrimento…
E que o fogo de nosso dentro seja o calor de nosso alento, empatia e respeito pelos “santos” é só isso que peço!

Que a aliança seja feita com eles:
Santo Antônio – dia 13/06
São João – dia 24/06
São Pedro – dia 29/06
Salve a sua vida para que outras sejam salvas!

Joana d’Arc Neves de Paula – Educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposentar-se do calor e  da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

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Enquanto desapareço no horizonte

Você atravessou a rua e me acenou desconcertada no final daquela manhã. Foi a última vez que te vi. Dilacerado, apertei o passo desviando de mim entre olhares estranhos. A rua estava cheia. Por um instante tudo era estranho pra mim. Assinamos os papéis e cedemos ao último abraço. Não conseguia desgrudar do peito meu corpo se despedindo do teu. Pra nunca mais viveria a memória do teu corpo no meu. Nunca mais o beijo, nunca mais teu cheiro, nunca mais teu gosto que eu bebia desmedidamente nas tardes sem fim. O tempo parou e se fez silêncio na orgia alucinada da cidade. Lentamente subi as escadas. Na plataforma embarco no último vagão e procuro o último banco. Era o mais perto que poderia estar de você enquanto desapareço no horizonte. Ao meu lado um banco vazio. Nele, despretensiosamente, um pingente de coração abandonado. Com cuidado o coloquei na palma da mão. Olhei pra ele demoradamente e vi nossa vida juntos passar freneticamente diante de mim com o último adeus. Mais um coração havia sido abandonado pelo caminho. Às vezes por descuido. Às vezes por vontade. Às vezes por demasiada proteção. Às vezes por não ecoar distante de idealizações presas ao passado. Na minha estação, cuidadosamente acomodei aquele coração perdido de volta ao banco vazio. Levantei e sem olhar pra trás saí do trem.

Gil Guzzo – é artista e vive carregando água na peneira. É um flaneur catador de latinhas. Faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com teatro e fotografia. Adora cozinhar e ficar olhando distraidamente o mar. É alguém que não se resta a menor dúvida…só não se sabe do que…

 

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Ainda bem que tem o amanhã!

Pra gente acordar,
Pra viver novas 24h,
Pra abrir os olhos, enxergar o novo dia.

Ainda bem que tem o amanhã,
Pra repensar as ideias,
Pedir perdão e também pra ouvir desculpas! Para se perdoar.

Ainda bem!

Amanhã,
Mesmo que tudo tenha dado errado ontem e a cabeça cheia de dúvidas… o amanhã existe.

Ainda bem que o novo dia nos recarrega e nos mostra outros caminhos.
Ele deixa para o ontem as amarguras, as inquietações e as decepções…

O amanhã se encarrega de tudo!
De mostrar pra gente um erro ou mostrar que acertamos o caminho.
Ainda bem!

Ainda bem que há o amanhã e a solução para muitas coisas.

Pra quem vive, sempre haverá o amanhã!
Ainda bem que dá pra confiar nele e entregar as soluções.

O universo se move a nosso favor.

Ainda bem que tem o amanhã, pra secar as lágrimas, pra amenizar o luto, para acreditar novamente que é possível! Sim, é.

Tudo cura com o tempo: a ferida, a dor da perda, a tempestade, os enganos. A fé está lá, no amanhã.

Ainda bem.
Ainda bem que existe o novo dia. Que a terra gira e que a luz do Sol ilumina novamente Amanhã.

Ainda bem que tudo passa!!
Que tudo passará…
Que o que sentimos hoje, amanhã pode mudar.

Ainda bem que tem o amanhã.
Amanhã, saberemos.

Vera Lígia Bellinazzi Peres – Casada, mãe da Bruna e do Matheus e avó do Léo, pedagoga, professora aposentada pela Prefeitura Municipal de Campinas, atualmente diretora da creche:  Centro Educacional e de Assistência Social, ” Coração de Maria “

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A vida quer viver

Repentinamente, algo me levou a visitar o bosque da cidade. Caminhei lentamente por um corredor de árvores, como se cada passo me conduzisse a um encontro que eu ainda desconhecia. Sentei-me em um banco e permaneci em silêncio, permitindo que o tempo desacelerasse.

À minha volta, a vida seguia seu curso. Pessoas transitavam, crianças brincavam, pequenos animais percorriam seus caminhos. Meu olhar repousou sobre a vegetação à minha frente. Raios de sol atravessavam os vãos entre as folhas das árvores, desenhando feixes de luz que pareciam revelar a delicada trama entre o visível e o invisível.

Naquele instante, não havia nada a fazer, apenas estar. A natureza, em sua silenciosa presença, parecia dizer aquilo que as palavras jamais alcançam. Permaneci ali, deixando que o bosque me habitasse tanto quanto eu o contemplava.

Pouco a pouco, percebi-me como um portal por onde a vida passava e acontecia através de mim e apesar de mim. Já não era eu quem contemplava o bosque; de algum modo, o bosque também me contemplava. Restava apenas abandonar-me ao fluxo e consentir em ser com aquele lugar.

Foi então que me dei conta de que havia algo naquela experiência que era comum e compartilhado por todos os que ali estavam. No entanto, havia também algo irredutivelmente singular: um acontecimento que se dava somente naquele lugar íntimo onde minha existência encontrava o mundo. Ninguém poderia viver exatamente aquela experiência por mim.

Essa percepção conduziu-me a uma compreensão ao mesmo tempo delicada e inquietante: se um dia eu deixasse de existir, também desapareceria uma forma única de encontro com o mundo. Não o mundo em si, que continuaria seu curso, mas a possibilidade singular de ele manifestar-se através da minha existência.

A princípio, essa compreensão trouxe uma discreta tristeza. Em seguida, porém, transformou-se em alegria. Se cada existência é uma abertura única para o mundo, então também somos livres para habitar nossa própria maneira de ser, sem a exigência de corresponder à experiência de ninguém. E, da mesma forma, podemos permitir que o outro seja aquilo que somente ele pode ser.

Algo do outro e algo em mim permanecerão sempre para além daquilo que se pode conhecer. Há uma dimensão inapreensível, um mistério que resiste a toda tentativa de captura. Ainda assim, aquilo que se revela e se comunica no encontro é suficiente para que uma ponte seja construída entre nós.

Talvez seja justamente o indizível que torne o encontro verdadeiramente fecundo. O que não alcançamos compreender não representa uma falha da relação, mas a preservação da alteridade. É essa distância, habitada pelo mistério, que impede a fusão, sustenta o diálogo e permite que cada encontro amplie nosso modo de existir sem jamais anular a singularidade de quem somos.

Ao contrário, é porque preserva essa distância que o encontro se torna possível. Nesse espaço, ambos podem habitar sua própria verdade e, simultaneamente, abrir-se à presença do outro. O cuidado torna-se, assim, um lugar de acolhimento da alteridade, onde cada um pode ser para si sem deixar de ser com o outro. É nesse processo de individuação que o ser transborda para o mundo, atualizando sua potência de existir nos mais variados modos de expressão.

Maria das Graças Guedes de Carvalho – Psicóloga. Ama a vida e suas dádivas como ser mãe, cuidar de pessoas e visitar o mar.

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A Dor

Doía-lhe

Pés
dedos
unhas
as feridas
apertadas pelas sapatilhas

que tentou arrancar

SEM MACHUCAR AINDA MAIS

Não entendia
como alguém poderia
guardar tanta DOR
e ainda sorrir

Deu-lhe repentinamente uma euforia
Iria encontrar quem lhe amava
Iria afagar-lhe os cabelos
beijar os lábios
descansar o dorso

Já havia tempo que não o via

Queria lhe contar sobre novos passos
nova dança
nova apresentação

mas acima de tudo
queria beijar-lhe os lábios
sentir seu cheiro
descansar seu corpo

Bateu-lhe um ARREPIO
uma mentira
tantos desafios
e ainda escondia

Era-lhe melhor
a dor da sapatilha

André Araújo – Homem em constante construção. Romântico por natureza, apaixonado pela vida e pelo universo das Belas Urbanas. Formado em Sistemas, encontrou na poesia seu verdadeiro idioma. Carrega um sorriso de menino e um olhar sensível para a beleza das pequenas coisas. Sempre se emociona ao ver o sorriso de uma mulher iluminar o mundo. É autor do livro Orvalho em Versos, publicado pela Editora Belas Urbanas.