
Você atravessou a rua e me acenou desconcertada no final daquela manhã. Foi a última vez que te vi. Dilacerado, apertei o passo desviando de mim entre olhares estranhos. A rua estava cheia. Por um instante tudo era estranho pra mim. Assinamos os papéis e cedemos ao último abraço. Não conseguia desgrudar do peito meu corpo se despedindo do teu. Pra nunca mais viveria a memória do teu corpo no meu. Nunca mais o beijo, nunca mais teu cheiro, nunca mais teu gosto que eu bebia desmedidamente nas tardes sem fim. O tempo parou e se fez silêncio na orgia alucinada da cidade. Lentamente subi as escadas. Na plataforma embarco no último vagão e procuro o último banco. Era o mais perto que poderia estar de você enquanto desapareço no horizonte. Ao meu lado um banco vazio. Nele, despretensiosamente, um pingente de coração abandonado. Com cuidado o coloquei na palma da mão. Olhei pra ele demoradamente e vi nossa vida juntos passar freneticamente diante de mim com o último adeus. Mais um coração havia sido abandonado pelo caminho. Às vezes por descuido. Às vezes por vontade. Às vezes por demasiada proteção. Às vezes por não ecoar distante de idealizações presas ao passado. Na minha estação, cuidadosamente acomodei aquele coração perdido de volta ao banco vazio. Levantei e sem olhar pra trás saí do trem.

Gil Guzzo – é artista e vive carregando água na peneira. É um flaneur catador de latinhas. Faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com teatro e fotografia. Adora cozinhar e ficar olhando distraidamente o mar. É alguém que não se resta a menor dúvida…só não se sabe do que…