Depois de 40 anos de casados, resolveram aquecer aquela relação.
Os últimos 10 anos tinham sido a própria solidão a dois.
Na última semana, o filho mais novo, com 29 anos, voou para morar em Londres, sonho antigo do menino, ou melhor, do homem, porque, com 29 anos, não podemos dizer que ele é um menino.
O mais velho, com 36 anos, já tinha saído há muito tempo da casa da família. Não tem filhos, mas mora com a namorada. Aliás, o garoto, ops, o homem, já está morando com a sétima namorada… Tempos de relações líquidas.
Já a deles é bem sólida. Dois pré-idosos. Ele com 59 anos e ela com 58 anos. Ele era um ano e meio mais velho que ela e fazia questão de dizer isso, talvez algo para parecer mais sábio, mais vivido, mais descolado…
Se conheceram na mesma escola, quando ele repetiu de ano e caiu na classe dela no colegial. Naquela época, se dizia assim, colegial, quando se queria falar sobre o ensino médio.
Ele já era o pegador, como se dizia dos meninos que beijavam muitas garotas. Já ela, bem tímida, encantou-se por aquele moço espivitado, seu oposto. Ela o achava divertido. Ele a achava bonita. Ele, atrevido; ela, recatada. Tão diferentes, mas foi justamente entre essas diferenças que o improvável aconteceu… apaixonaram-se.
Namoraram, brigaram, voltaram… fizeram isso várias vezes por longos anos, mas um dia resolveram casar. Casaram… chegaram a se separar uma vez. Ele pegou suas coisas e foi embora, mas voltou, mais apaixonado do que nunca, e assim seguiram por alguns anos, até que veio o primeiro filho e, anos depois, o segundo.
Festas de aniversário, escolinhas dos filhos, o trabalho dela, o trabalho dele, a compra da casa própria financiada, ceias de Natal, formaturas, doenças na família e também as deles. A apendicite supurada, a vesícula tirada e os velórios. É, na vida também vivemos os velórios.
Os dias, com o passar do tempo, foram passando mais rápido, e o colorido da juventude dos anos 80, época em que eram jovens, foi dando espaço para o preto, o branco e o cinza, uma paleta de cores muito reduzida.
Na hora do embarque do filho, ambos sentiram uma facada no peito. Ela olhou para ele, tentando reencontrar algo, e ele disse:
— Enfim sós de novo.
Tentou ser engraçado… Ela deu um sorrisinho de canto de boca, algo constrangedor que os dois sentiram. Tem silêncios que gritam.
Pegaram o carro. Passava das 20h, e o som estava ligado em uma rádio de flashback… Caminho longo do aeroporto para casa, silêncio reinando. Passaram na frente de um motel e, em um impulso, ele virou o carro e disse:
— Vamos entrar? Faz tempo que não fazemos isso.
Ela concordou com a cabeça, sem dizer uma palavra.
Pararam no interfone da entrada, e a moça perguntou se iriam passar a noite ou se ficariam pelos planos de horas oferecidos… Ele disse:
— Não sei, acho que a noite, ou melhor, as três horas… Não sei…
A esposa perguntou:
— Podemos pegar esse de três horas e mudar se quisermos?
A resposta foi sim. Então entraram.
Guardaram o carro no box e subiram a escada para a suíte. O motel parecia vazio… Talvez os tempos de crise ou o dia mesmo, domingo. Bom, subiram as escadas. Havia teias de aranha, literalmente, nas paredes da escada…
No quarto, aquilo era uma novidade para eles, depois de tantos anos sem ir a um motel, como nos primórdios da relação.
Tentaram ligar o som, não conseguiram. Tentaram mudar a luz, não conseguiram. Desistiram e foram para os beijos.
Mão aqui, mão ali, e a temperatura foi subindo. Foi subindo tanto que tentaram ligar o ar-condicionado e não conseguiram.
Riram da situação. Será que era a idade, sistemas novos aos quais não estavam habituados?
Interfonaram para a recepção, e ele disse:
— O ar-condicionado não funciona.
A recepcionista respondeu:
— Pega o controle e aperta o enter.
A esposa disse:
— Só tem o controle da TV.
O marido, para a recepcionista:
— Não tem controle do ar-condicionado, nada funciona aqui, nem eu consegui funcionar.
Riram. Era verdade.
Deram um novo quarto ao casal.
O ar funcionava, o som também… Novamente os beijos, novamente as mãos, novamente o que não conseguiam viver e fazer havia anos e, enfim, FUNCIONOU! Para ambos funcionou.
Estenderam a hospedagem para dormirem ali.
A noite foi quente e viva.
Existia ali uma nova intimidade, diferente, uma coisa assim difícil de explicar, mas muito boa.
Foram embora. A moça cobrou mais que o combinado: as três horas e também a pernoite. Não foi o combinado, mas, naquele momento, eles não queriam estragar, com as miudezas da vida o que tinha acontecido.
Porém, como tudo tem sempre um mas, ainda não sabem se vão ou se ficam.

Adriana Chebabi – Sócia-fundadora e editora-chefe do Belas Urbanas. Publicitária. Roteirista e escritora. Antes de tudo, uma contadora de histórias. Curiosa por natureza, sonhadora que realiza. Acredita que podemos melhorar o mundo, talvez ingênua, talvez não. Desafios a instigam. Ama viajar, estar na natureza e experimentar novos sabores. É do signo de Leão. Já não tem mais certeza do ascendente, mas sabe que, no horóscopo chinês é Macaco.