
Estava almoçando em um restaurante self-service. Almoço rápido. Sozinha.
A mesa era pequena, para duas pessoas. Tenho evitado pegar no celular durante o almoço, mesmo estando sozinha. As mesas são bem próximas nesse restaurante. Ao meu lado, outra mesa para duas pessoas.
Sentam-se duas mulheres. Começam a conversar. Coisas banais do dia a dia. Impossível não ouvir.
Até que uma delas, a que estava ao meu lado, a distância entre nossas mesas não devia passar de uns vinte centímetros, tira uma caneta e espeta na própria barriga.
Eu olhei para aquilo sem querer acreditar no que estava vendo. Rapidamente pensei nas canetas emagrecedoras, mas também pensei que ela poderia ser diabética.
Peguei meu celular e procurei imagens de canetas emagrecedoras. Era uma delas. Rapidamente, olhei para a mão da moça que havia usado a caneta.
Era uma mão cadavérica, muito magra. Tentei disfarçar. Não queria mostrar que estava olhando. Mas não consegui.
Depois de ver aquela mão magérrima, olhei para o rosto dela. Também muito magro. Os ossos da maçã do rosto estavam salientes. Não sei que idade ela tinha. Uma mulher madura, com certeza.
Terminei meu almoço e saí dali com aquela cena na cabeça e com muitas interrogações sem resposta imediata.
Que valores estão vivos hoje?

Adriana Chebabi – Sócia-fundadora e editora-chefe do Belas Urbanas. Publicitária. Roteirista e escritora. Antes de tudo, uma contadora de histórias. Curiosa por natureza, sonhadora que realiza. Acredita que podemos melhorar o mundo, talvez ingênua, talvez não. Desafios a instigam. Ama viajar, estar na natureza e experimentar novos sabores. É do signo de Leão. Já não tem mais certeza do ascendente, mas sabe que, no horóscopo chinês é Macaco.