
Em um gesto carinhoso,
o papel pediu ao lápis
versos emprestados
para compor uma prosa.
O lápis amigável
pediu à mão que o conduzia:
“Empreste ao papel seus versos,
deixe cozinhar suas poesias.”
A mão trêmula não hesitou,
pediu ao cérebro, seu mentor:
“Entregue logo seus versos,
quero ouvir esta poesia.”
O cérebro, um pouco desconcertado,
disse: “Há versos para todo lado,
por que os meus têm de preencher este papel?
Meus versos são de amor, não poderá usá-los.
Mas veja bem, tenho alguns jogados,
mal escritos e até estragados.
Quem sabe você os utiliza?
Se não, jogue-os fora.”
—
“Amor, verdade e prosa,
carinho, amizade e abrigo,
sentido de se ter alguém,
mãos dadas até o fim do caminho.”
Almas limpas, almas brandas,
tons de alma, alma chama,
fogo da vida, vida que declama,
a alma, a alma ainda sangra.
Rasa, profunda alma, alma suja,
que a poeira esquecida
fez dos versos suas feridas
e entregou perdida a alma bandida.
Transtornada noite constrói o dia…
Seus versos, meus delírios, escondidos se refletiam.
Já não eram seus versos que ditavam aquela alma vazia,
era esta alma que sangrava os versos e poesias.
Sangrava de amor, dor e vida,
sentada na calçada, com frio e encolhida.
Sangrava seus versos, suas poesias,
desidratada, desnutrida, esquecida.
—
A mão pegou os versos que foram jogados,
entregou ao lápis,
que iria levar para o papel
para quem sabe compor uma poesia.
Mas o lápis afiado
entendeu que ele poderia,
quem sabe ele lapidar os versos
e transformar em harmonia.
Então pegou o primeiro verso:
“Amor, verdade e prosa”,
e transformou sem pensar
na Prosa Verdadeira do Amor.
Mas não quis parar por aí.
Pegou o segundo verso
e logo começou a sorrir:
“Carinho, amizade e abrigo”
virou um abrigo de amizade e carinho.
Transformou também seus sentidos:
“sentido de se ter alguém”
para alguém que faz total sentido,
no fim do caminho de suas mãos.
Atravessadas em um meio-fio,
onde suas linhas cruzaram o caminho
e juntas espantaram a solidão,
ele estava aguçado.
Artesão de lápis de ponta fina,
desenhava o papel
parecendo lapidar coisa boa.
Mãos dadas até o fim da poesia,
pegou ele a alma, delicada e fria.
Onde o fogo brando da alma limpa
ardia em chama, a alma atrevida.
Não poupou o lápis suas feridas,
entalhou a alma, esculpindo várias feridas.
—
Entregue à vida,
alma, alma linda.
Pegue o lápis, alma bandida,
escreva você seus versos, entregue sua poesia.

André Araújo – Homem em constante construção. Romântico por natureza, apaixonado pela vida e pelo universo das Belas Urbanas. Formado em Sistemas, encontrou na poesia seu verdadeiro idioma. Carrega um sorriso de menino e um olhar sensível para a beleza das pequenas coisas. Sempre se emociona ao ver o sorriso de uma mulher iluminar o mundo. É autor do livro Orvalho em Versos, publicado pela Editora Belas Urbanas.