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Houve Sílvia Que Somente Ouve

Vou te fazer uma pergunta: o que é, para você, ouvir e escutar? Aliás, existe diferença?

Em meu trabalho, por muitas vezes incluo esta indagação. Faço isso para entender se as pessoas que estão ali comigo estão realmente presentes ou não. Isso mesmo: quero compreender se estão prestando atenção em mim ou “derivando” em algum local no seu próprio mundo mental.

Quando lanço essa pergunta, geralmente capto um silêncio profundo e um desconfortável ar de dúvida. O “mentalês” — nossa linguagem cerebral — entra em ação e a pessoa se auto indaga: “Mas será que tem diferença?”. Alguns começam a explicar e se enrolam; outros ficam à espera para ver se alguém acerta, pois não querem se arriscar a passar vergonha. Depois de muitas respostas, quando eu, finalmente explico o conceito, sempre surge aquela frase clássica: “É, eu já sabia, só queria ter certeza”.

Para além da teoria, essa diferença se manifesta na vida real. Para isso, vou contar sobre o encontro entre duas amigas: Rachel e Sílvia.

A tarde de sábado estava preguiçosa, o cenário perfeito para Rachel despejar sobre Sílvia as novidades da semana enquanto o café esfriava nas xícaras. Rachel falava com entusiasmo, gesticulando para dar vida à história sobre o jantar de noivado de uma prima distante, um evento que exigia um protocolo milimétrico. “Sílvia, preste atenção, porque isso é o mais importante: o convite dizia traje passeio completo, mas a noiva deixou claro que, por ser no jardim, ninguém deveria ir de salto agulha ou preto, além de avisar que o presente deveria ser entregue na casa dela, nunca no local da festa, para não causar confusão com a logística.”

Sílvia, por sua vez, estava ali. Fisicamente, pelo menos. Ela balançava a cabeça em intervalos regulares (bem típico de quem ouve, só ouve), emitia pequenos “ahã” e “claro” no tempo certo e também mexendo a cabeça como se estivesse confirmando, mantendo contato visual que beirava a perfeição. Seus ouvidos estavam sim, apenas, captando as vibrações sonoras da voz de Rachel, as ondas entravam pelo canal auditivo, faziam o tímpano vibrar e os pequenos ossos do ouvido interno trabalhavam como uma máquina bem lubrificada. O sistema biológico auditivo de Sílvia estava operando em capacidade máxima, captando cada decibel e frequência.

O problema é que, enquanto os ouvidos de Sílvia captavam o som, o foco e a atenção dela estava em outro lugar. Ela tratava o tom de voz da amiga apenas como um ruído de fundo reconfortante, enquanto sua mente debatia internamente (mentalês) se comprava ou não
aquela sandália preta de salto fino que vira na vitrine numa loja no caminho do encontro de Rachel. Para Sílvia, as palavras de da entusiasmada amiga eram como uma música em idioma estrangeiro: a melodia era agradável, porém a mensagem simplesmente não fazia sentido.

Bons momentos de conversa transcorreram, até que Rachel fez um breve silêncio e percebeu o olhar perdido da amiga, que continuava a balançar a cabeça afirmando algo que não havia sido perguntado. Rachel questionou, com um brilho de expectativa nos olhos: — E então, o que você acha que eu respondo para ela sobre o presente?

Sílvia, despertada do transe pela interrupção do fluxo sonoro, sorri com confiança absoluta e dispara: — Ah, amiga, acho que você deve ir de preto e levar o presente na hora, não tem erro!

O olhar de Rachel naquele momento foi um misto de decepção e epifania. Ela percebeu que, nos últimos vinte minutos, ela não tinha conversado com uma pessoa, mas sim com uma parede que sabia balançar a cabeça. Sílvia a não era má pessoa, ela apenas tinha caído na armadilha mais comum da vida moderna: ela ouviu tudo, mas não escutou absolutamente nada.

Essa cena, que acontece em milhares de salas de estar, mesas de café, almoço e jantar todos os dias, e revela uma verdade intrigante sobre nós. Além de sermos bombardeados por telas e sons o tempo todo, desenvolvemos a péssima habilidade que nos permite “ouvir” sem “escutar”. Ouvir é o que o seu corpo faz para te avisar que um carro está passando ou que a chuva está chegando com alguns trovões; é um processo fisiológico, automático e passivo e, na maioria das vezes, perdendo a essência do estar presente. Já escutar é um ato intencional com total foco de atenção é o real exercício de presença, um ato de respeito e educação onde você interage verdadeiramente com a outra pessoa compartilhando seus saberes de forma empática.

Esta é uma das grandes tragédias cotidianas que afligem os relacionamentos, sejam eles familiares, de amizade ou afetivos. Como diz o escritor: ‘as pessoas ouvem para responder, elas não escutam para entender’. Quando apenas ouvimos, captamos o barulho; quando escutamos, captamos e internalizamos o ser humano. No fim das contas, o café de Rachel esfriou, a mensagem se perdeu e, naquele sofá, houve Sílvia que somente ouve.”

Marselo com S –  Especialista Comercial e Comportamental, com 20 anos de experiência em Educação Corporativa, com inserção de conceitos das Ciências Comportamentais para explicar o porquê dos comportamentos. Fã de hard rock (Kiss), praticante dedicado em atividades físicas e de boas e bem humoradas conversas.

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Sugestões de como ajudar vítimas de abuso

Nos intrincados e sombrios caminhos que levam a um relacionamento abusivo,
infelizmente há várias vítimas, a pessoa diretamente envolvida e outras, que podem
ser: amigos e familiares, se trata de um ciclo de violência, que pode reverberar, se
propagar, os formatos são variados, nem sempre o abuso é aquele caracterizado por
uma violência explícita, pode ser que a pessoa nunca tenha sido agredida fisicamente,
porém ouve ofensas constantes, é humilhada, tratada com desdém, desacreditada, há
muitas maneiras desse abuso acontecer.

Hoje quero escrever sobre como aqueles que são testemunhas desses abusos,
podem se sentir impotentes diante do sofrimento de alguém amado que vive uma
relação abusiva, às vezes essa circunstância se prolonga por anos e a pergunta óbvia
é como ajudar essa pessoa a sair da situação, se o caso é uma ameaça eminente ou
uma briga séria ou ainda uma agressão violenta, a atitude a se tomar é ligar para a
polícia ou no caso de ser menor de idade, o Conselho tutelar, existe também em
Campinas-SP, o Centro de Referência e Apoio à Mulher (Ceamo) que é um espaço de
responsabilidade da Prefeitura, destinado a prestar acolhimento e atendimento
humanizado às mulheres em situação de violência, proporcionando atendimento
psicológico e social e orientação e encaminhamentos jurídicos necessários à
superação da situação de violência, contribuindo para o fortalecimento da mulher; é
importante saber que essas opções existem, entretanto nem sempre são opções que
as mulheres buscam, muitas vezes a família esconde os abusos, vão vivendo naquela
relação tóxica, os filhos tem vergonha, os mais próximos convivem e não sabem como
ajudar, eu sei as atitudes que não ajudam: dar conselhos, julgar, dizer que tudo vai
passar, falar palavras vazias, quando alguém está sofrendo por uma situação de
abuso, ela sabe muito bem o que deveria fazer, ela simplesmente não tem forças para
fazer, e infelizmente muitas das vezes acredita firmemente que a outra pessoa vai
mudar, portanto em determinadas circunstâncias talvez o que mais ajude é ouvir,
oferecer um chá, um café, uma água, ser um bom amigo, estar presente e mais
importante: não demonstrar pena, a pessoa já está suficientemente fragilizada, não
precisa se sentir mais humilhada, a pessoa que observa ou vive num contexto aonde o
abuso acontece, também carregará as sequelas dessas situações e vai ter que cuidar
de si, de seu emocional para não se envolver e tomar as dores da pessoa, muitas
vezes tudo o que se pode fazer é ter paciência, é preciso entender mesmo que doa
muito que cada um é responsável por sua vida e é preciso que se aceite a ajuda, caso
contrário chegará como intromissão e pode trazer consequências ainda mais
desagradáveis. Para ajudar alguém de verdade é preciso criar um laço de amizade,
criar uma conexão, ser humilde para observar quando intervir e quando apenas estar
presente oferecendo uma escuta amorosa e atenta, entender que nem sempre a
pessoa quer ou está preparada para uma solução, às vezes ela quer apenas
desabafar e ainda não está pronta para enfrentar mudanças.

Eliane Ibrahim – Bela Urbana, administradora, professora de Inglês, mãe de duas, esposa, feminista, ama cozinhar, ler, viajar e conversar longamente e profundamente sobre a vida com os amigos do peito, apaixonada pela “Disciplina Positiva” na educação das crianças, praticante e entusiasta da Comunicação não-violenta (CNV) e do perdão.