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A vida quer viver

Repentinamente, algo me levou a visitar o bosque da cidade. Caminhei lentamente por um corredor de árvores, como se cada passo me conduzisse a um encontro que eu ainda desconhecia. Sentei-me em um banco e permaneci em silêncio, permitindo que o tempo desacelerasse.

À minha volta, a vida seguia seu curso. Pessoas transitavam, crianças brincavam, pequenos animais percorriam seus caminhos. Meu olhar repousou sobre a vegetação à minha frente. Raios de sol atravessavam os vãos entre as folhas das árvores, desenhando feixes de luz que pareciam revelar a delicada trama entre o visível e o invisível.

Naquele instante, não havia nada a fazer, apenas estar. A natureza, em sua silenciosa presença, parecia dizer aquilo que as palavras jamais alcançam. Permaneci ali, deixando que o bosque me habitasse tanto quanto eu o contemplava.

Pouco a pouco, percebi-me como um portal por onde a vida passava e acontecia através de mim e apesar de mim. Já não era eu quem contemplava o bosque; de algum modo, o bosque também me contemplava. Restava apenas abandonar-me ao fluxo e consentir em ser com aquele lugar.

Foi então que me dei conta de que havia algo naquela experiência que era comum e compartilhado por todos os que ali estavam. No entanto, havia também algo irredutivelmente singular: um acontecimento que se dava somente naquele lugar íntimo onde minha existência encontrava o mundo. Ninguém poderia viver exatamente aquela experiência por mim.

Essa percepção conduziu-me a uma compreensão ao mesmo tempo delicada e inquietante: se um dia eu deixasse de existir, também desapareceria uma forma única de encontro com o mundo. Não o mundo em si, que continuaria seu curso, mas a possibilidade singular de ele manifestar-se através da minha existência.

A princípio, essa compreensão trouxe uma discreta tristeza. Em seguida, porém, transformou-se em alegria. Se cada existência é uma abertura única para o mundo, então também somos livres para habitar nossa própria maneira de ser, sem a exigência de corresponder à experiência de ninguém. E, da mesma forma, podemos permitir que o outro seja aquilo que somente ele pode ser.

Algo do outro e algo em mim permanecerão sempre para além daquilo que se pode conhecer. Há uma dimensão inapreensível, um mistério que resiste a toda tentativa de captura. Ainda assim, aquilo que se revela e se comunica no encontro é suficiente para que uma ponte seja construída entre nós.

Talvez seja justamente o indizível que torne o encontro verdadeiramente fecundo. O que não alcançamos compreender não representa uma falha da relação, mas a preservação da alteridade. É essa distância, habitada pelo mistério, que impede a fusão, sustenta o diálogo e permite que cada encontro amplie nosso modo de existir sem jamais anular a singularidade de quem somos.

Ao contrário, é porque preserva essa distância que o encontro se torna possível. Nesse espaço, ambos podem habitar sua própria verdade e, simultaneamente, abrir-se à presença do outro. O cuidado torna-se, assim, um lugar de acolhimento da alteridade, onde cada um pode ser para si sem deixar de ser com o outro. É nesse processo de individuação que o ser transborda para o mundo, atualizando sua potência de existir nos mais variados modos de expressão.

Maria das Graças Guedes de Carvalho – Psicóloga. Ama a vida e suas dádivas como ser mãe, cuidar de pessoas e visitar o mar.