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Há tempo

Chegou um tempo diferente sem muitos avisos.
De repente doem os joelhos, a caminhada ficou mais lenta. Pausas para respirar nas subidas. Pausas nas rotas de bicicleta.
Largou a vida lá fora, não TV, não notícias, não vida alheia.

O short jeans rasgado cobre o mesmo já marcado corpo. Pouco se olhar no espelho, agora faz parte.
Mala pronta, pequena, suficiente para o tempo que for. Viagem ao encontro de filhos, netas, família. Terras frias onde o mesmo sangue corre nas veias há décadas. Pais, avós, pessoas.
Agora a percepção é menos ansiosa, não se esperam grandes novidades, mesmo assim elas vêm de encontro.
Interior, tempo lento, vilas espaçadas, estradas intermináveis.

Ali se vive sem pressa, observando os dias , os meses, as mudanças de estação.
O frio recolhe cada um no seu canto. O calor do sol vem abrir portas e colocar todos na rua.
Pelas ruas estreitas uma alma aqui, outra ali.
Um bom dia, um café no barzinho da Tereza, único na Aldeia. Forasteira.

Aos poucos vai sabendo de quantos vieram pra cá recomeçar a vida. Criam grupos que falam uma só língua, nem sempre falada, mas sentida.
Os encontros, que são muitos, ela jura que atravessou um portal para os anos 70. Mulheres de tranca, roupas coloridas compridas, sorrisos congelados de “paz e amor”, num lugar que pode ser bar que vem junto com uma biblioteca, sofás espalhados, alguém num canto corta o cabelo de alguém, uma música celta talvez e línguas diversas.
Até ela se surpreende , viva e deixe viver.

Na casa colada vivem um holandês, uma inglesa com filho, um cachorro, dois gatos e uma desordem característica. Não tem compromisso com isso.
Mas sempre um bom dia e um sorriso. Basta.
Os bichos já fazem da casinha um lar.
Quando chegou e os filhos a deixaram de mala e sacolas na porta, susto. Largada.
Diferente dessa vez. Limpou, cuidou e fez um lar para viver os próximos 30dias.

Começou a explorar os infindáveis caminhos ora belos, ora tristes de uma realidade dos tempos: monocultura de eucaliptos qual palitos de fósforo esperando o próximo verão, onde vão arder e aguardar os bombeiros voluntários que serão exaltados por aplacar a estupidez plantada na terra.
Vida segue num tempo lento e desobrigado fazendo-a ler três livros em um mês. Costurando para as netas, plantando flores nos vasos de outros.
Caminhadas longas se perdendo e achando, levando-a à pequena Vila onde já há civilização. Cafés, lojas, mercados, pessoas, barulhos.
O retorno é silencioso de volta à casa.

Da mesa onde escreve vê as estreitas estradas por onde andou, como linhas no papel.
O som apenas de pássaros, galos ao amanhecer.
Saiu a aceleração, o compromisso, entrou o ócio o aproveitar o tempo, o simples, aproveitar a vida e não passar por ela.

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana, jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

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Sensorial

Brisa gelada
Redondo caminho
Algodão doce, maresia

Heidi na tela
Mar pacífico,
Gaivota no ninho
Carioca no carteado
Minha vó,
Com sorriso do lado

Melancia e um bom vinho.
Partiu? Pra onde?
Quintero, los enamorados
Pinheiros cercados
Vista à vista,
Um barco, o oceano…
Sempre…as memórias
Um bom ano
Cheio de histórias.

Macarena Lobos –  Bela Urbana, formada em comunicação social, fotógrafa há mais de 25 anos, já clicou muitas personalidades, trabalhos publicitários e muitas coberturas jornalísticas. Trabalha com marketing digital e gerencia o coworking Redes. De natureza apaixonada e vibrante, se arrisca e segue em frente. Uma grande paixão é sua filha.
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Caminhos da vida (Vagões)

Quando eu era bem pequena não imaginava um terço do que me aconteceria ao longo da vida. Seria como apostar e perder.
Gostei e aprendi a ser sozinha mas quase impossível viver assim, que sejam abençoados aqueles que podemos chamar de verdadeiros amigos. A vida não é fácil quando se precisa sobreviver na maior parte dela. Privilégio daqueles que realmente podem ter um leque de opções e escolher qual rumo tomar, boa sorte a quem só pode seguir para onde a vida levar.
Neste segundo caso é preciso jogo de cintura e um sorriso largo no rosto para conseguir se manter nessa selva.
Aprendo todos os dias que os caminhos diferentes que aparecem na nossa vida na verdade são pontes até um único objetivo final.
Aproveito o gancho da analogia a pontes e digo também que esses caminhos poderiam ser comparados facilmente a estações de metrô. O velho clichê de quem sobe e desce ao longo do caminho da vida. Já estive em vagões com muita alegria, outros com muito medo mesmo, e ainda outros que me surpreendi de todas as formas. Aprendi que existe vagões em que devemos sempre manter contato e passear nele as vezes, outros que preciso manter distância para não me machucar outra vez, vagões em que olho com carinho e outros com tristeza, vagões escuros que ainda mantém portas abertas esperando que eu volte para fechar.
Vagões que estão a minha frente em que nunca entrei e ainda não tem portas abertas, eu só os imagino.
Não menos importante, existem as estações que são responsáveis pelo sim e pelo não. Há estações em que descem pessoas que sentimos saudades, estações que descem sentimentos e damos adeus olhando de canto de olho, estações que ficam a infância, a genuína sensação de se esconder debaixo da coberta por causa do Bicho-Papão.
Tem estações que sobem pessoas que as vezes já vimos em outras estações mas que não subiram no momento. Estações que sobem momentos felizes, de emoção, de angústia, sofrimentos e prazer. Não necessariamente nessa ordem.
Vou aprendendo ao longo dessa jornada que o importante é aproveitar cada momento sabendo que não vai voltar cada segundo que já passou. Inclusive esse agora. Viu!? Já foi…
É necessário beber bastante água, e fingir loucura para o que tentar te enfrentar.
Se eu puder dar um conselho seria esse, mantenha um vagão de sonhos e outros bem cheio de coragem e ferramentas que você tiver à disposição. É muito importante que os mantenha bem perto de onde você estiver e deixe bem afastado daqueles vagões negativos e de gente abelhuda.
De resto se hidrate, sorriso no rosto e muito amor.
Vou seguindo dentro do meu vagão apreciando a vista e aguardando a próxima estação.
Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 
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Conselhos do Kiabo – 3

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Nunca sorria demais. Esse mal comum hoje em dia é uma mal sem procedentes. Que coisa horrível ficar mostrando para qualquer um parte tão íntima quanto os dentes. Sempre que sorrir, sorria no máximo 2 cm de abertura, o resto esconda. Não mostre de forma alguma. Se guarde para uma ocasião, onde seja necessário sorrir muito. Entendeu a ocasião?

 Até a próxima, Kiabo.

jeff

Jeff Keese – é arquiteto, produtor de exposições de arte, e durante 7 anos foi consultor do mapa das artes de São Paulo. O Kiabo é um personagem que criou na adolescência para dar conselhos para as mulheres, por isso os conselhos do Kiabo estão sendo divulgados no Belas Urbanas.